A Mitsubishi Motors 20 anos

Na década de 1980 quem quisesse um carro diferente dispunha no máximo de pequenas variações, como os Puma montados sobre plataformas de Volkswagen. Filho de revendedor Ford, Eduardo de Souza Ramos decidiu explorar um nicho: projetou e montou em suas próprias oficinas um modelo conversível do Corcel. A experiência permitiu a Eduardo e seu sócio Paulo Ferraz, conhecer de perto o mundo dos pequenos trabalhos industriais. Criaram, a partir das picapes Ford F-1000, as chamadas cabines duplas. Davam, por intuição e sem saber, o grande passo que iria, década após, alarmar, surpreender e convencer os japoneses da Mitsubishi Motors: a personalização de picapes, transformando-as de carros de trabalho em
objetos do desejo para clientes em busca de algo novo.




AS PICAPES NÃO ERAM AS MESMAS

Eduardo e Paulo Ferraz tomaram uma atitude radical: vender rapidamente o construído com tanta dedicação e êxito, e começar atividade menor, de importação e venda. Fizeram um book caprichado e o enviaram à três grandes marcas. A Ford resolveu ficar com a Mazda; a BMW quase assinou; sobrou a Mitsubishi Motors, respondendo interessada num contato. Eduardo reuniu números, fotos, dados do Brasil, lastro empresarial e foi para o Japão. Voltou nomeado importador.

O negócio começou aos 8 de outubro de 1991. Naquela noite, estourou-se um barril de saquê, o Japão mandou executivos e um mimo, uma bonequinha alusiva à ocasião. Hoje no corredor de acesso à sala de reunião do Conselho da Mitsubishi Motors do Brasil, é sinal do quanto se pode crescer com foco e crença. Nunca na história deste país uma bonequinha testemunhou a venda de mais de 200.000 veículos.

As picapes Mitsubishi L200 não eram as mesmas saídas do Japão. Estavam elevadas do solo, equipadas com largas rodas cromadas, a imponência ressaltada pela adição de faixas laterais e pelo interior bem cuidado ? onde se incluía, além da sonorização, um distinto, caro e jamais imaginado revestimento de couro. Os convidados para a inauguração também surpreenderam. Não era o público consumidor tradicional de picapes, como pequenos comerciantes e pequenos proprietários rurais.

Boa parte do PIB paulistano esteve presente, as turmas do iatismo, das corridas e automóveis, banqueiros, atores e atrizes, celebridades da TV e da mídia, além de profissionais liberais e executivos bem-sucedidos, a clientela das antigas cabines duplas SR. Os nipônicos viam pela primeira vez suas valentes e trabalhadoras Mitsubishi L200 transformadas em desejados produtos de consumo do mercado de luxo.

Os conceitos aplicados à cabine dupla Mitsubishi L200 como um bem equipado sonho de consumo diferenciavam-na das demais, e essa imagem passou a se refletir também nos utilitários esportivos Pajero. Os reflexos e as boas vendas transformaram a versão Full, topo-de-linha, em refinado objeto do desejo ? e permitiram a coragem de produzir o modelo Sport em Catalão, muitos anos depois.

GOIÁS, UMA POSSIBILIDADE PALPÁVEL

O cruzamento de custos de importação, o descarte local de peças japonesas trocadas por outras ? como rodas e pneus ? passaram a alimentar a idéia, factível pela incorporação de componentes nacionais.

Novamente com os trunfos da implantação da marca, as conquistas institucionais e a pequena experiência na Zona Franca, Eduardo de Souza Ramos solicitou licença e cessão de tecnologia para produzir a Mitsubishi L200 no Brasil. Conseguiu. Até hoje é a única operação industrial de veículos Mitsubishi no mundo que não pertence à marca japonesa.

Um dia o então governador de Goiás, Maguito Vilela, ligou e marcou uma visita à empresa. A ausência dos japoneses não afetou sua disposição em atrair a indústria de automóveis para o estado. E Goiás, conhecido pela dupla Eduardo e Paulo apenas por vista aérea, se transformou em possibilidade palpável. Assim, focaram na cidade mais próxima de Uberlândia, no rico Triângulo Mineiro, uma das alavancas de progresso no interior. Escolheram Catalão, 100 quilômetros adiante, à margem da estrada que une Brasília a São Paulo e de uma ferrovia pouco utilizada, ligada pela BR-262 ao porto de Vitória (ES), por onde se fazem as importações.

No dia 15 de julho de 1998, saía da linha de montagem a primeira Mitsubishi L200, branca, com a morfologia típica do Brasil: cabine dupla, motor a diesel, tração nas 4 rodas. Eram 9.700 metros quadrados de área construída. Ali, 150 funcionários produziam cinco veículos por dia.

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